ATO 01
Cena 01/ Reserva Florestal/ Floresta/ Interno/ Noite
(Eduarda corre apressadamente entre as árvores, sempre se desvencilhando dos galhos, quando pode. Muito ritmo. De maneira acelerada, a CAM foca nos pés da garota, que não para de correr, até que ela tropeça, dando com a cara no chão. Sem se levantar, Eduarda vira-se, com os olhos fixos em alguém (câmera subjetiva).
EDUARDA: Por favor, não faz isso comigo.
(Eduarda leva um tiro – por alguém - e imediatamente morre)
10 ANOS DEPOIS – RIO DE JANEIRO
Cena 02/ Apartamento de Patrícia e André/ Cozinha/ Interno/ Dia
(Patrícia, ainda de pijama, em pé, em frente a uma pequena mesa de mármore. Ela põe algumas vasilhas em cima da mesa. André entra e vai de encontro à Patrícia, dando-lhe um beijo apaixonado)
ANDRÉ: Bom dia, meu amor.
PATRÍCIA: Bom dia.
ANDRÉ: Já fez as minhas panquecas?
PATRÍCIA: Ainda estão no fogo.
ANDRÉ: Você, em pleno domingo, acordada às oito da manhã. Posso saber o que te tirou da cama tão cedo?
PATRÍCIA: Esqueceu que os nossos amigos vêm almoçar conosco?
ANDRÉ: Ah sim, claro. Você e essa ideia de um novo acampamento. Você tem certeza que isso é uma boa ideia?
PATRÍCIA: E por que não seria? Como já faz um tempo que toda a turma não se ver, esse novo acampamento pode ser uma oportunidade de todo mundo se rever, passar um tempo junto. Além de que esse novo acampamento pode ter um final melhor do que o de 10 anos atrás.
ANDRÉ: Nesse período do ano, você sempre se lembra da Eduarda, não é?
PATRÍCIA: Ela era uma das minhas melhores amigas. Não tem como esquecer o que aconteceu com ela. O que me deixa mais triste é que nada foi descoberto a respeito do assassinato dela. 10 anos e nada.
ANDRÉ: 10 anos é muito tempo, meu amor. Tenho certeza que muita coisa mudou na vida daquela turma do acampamento passado.
PATRÍCIA: Nossa turma de amigos. Fiquei sabendo que muitos tiveram probleminhas uns com os outros, mas nada que um programa fraternal de sete dias conserte.
Cena 3/ Mansão Khoury/ Sala de estar/ Interno/ Dia
(Félix, de terno e gravata vinho, está sentado em um dos sofás. Pilar desce a escada. Félix, ao ver a mãe, levanta-se)
FÉLIX: Uau, como a senhora está deslumbrante, mamy poderosa.
PILAR: Eu sou deslumbrante, meu filho. Em todas as ocasiões.
(Mãe e filho se abraçam)
FÉLIX: Ah, claro que é. Para ter um filho lindo e maravilhoso como eu, o mínimo que a senhora poderia ser é deslumbrante. Vamos para o almoço no apartamento da Patrícia, aquela assalariada?
PILAR: Félix, não fale assim dos seus amigos.
FÉLIX: Que amigos? Desde quando patrão é amigo de ex-secretária, mamy?
PILAR: Poupe-me, filho. Como está seu pai?
FÉLIX: Com a mesma cara de buldogue rabugento de sempre. Deixei-o lá, fazendo cookies com o Niko. Espero que não haja a terceira guerra mundial entre os dois. E a senhora, mamy? Ainda se recuperando do baque?
PILAR: Estou levando a vida, meu filho. Maciel me faz muita falta.
FÉLIX: Que triste, né? A pessoa ser atropelada por uma jamanta.
PILAR: A Maria Marta realmente é uma jamanta.
FÉLIX: Mamy, não é porque estamos apenas nós dois em casa que a senhora tem que perder os bons modos. Aquilo foi uma fatalidade. Acontece.
PILAR: Fatalidade coisa nenhuma. Ela matou o Maciel. Atropelou o meu amor e não teve nem a bondade de prestar ajuda. Mas um dia ela sofrerá as consequências disso. E eu espero que sejam as piores.
Cena 4/ Motel/ Quarto/ Interno/ Dia
(Paloma e Lucas abraçados, deitados na cama, nus)
PALOMA: Que noite magnífica, meu bem.
LUCAS: Duvido que você já teve uma noite quente como essa com aquele pivete do seu namorado, o João Lucas. O infeliz ainda tinha que ter praticamente o mesmo nome que o meu?
PALOMA: Ah, também não precisa esculachar com o coitado. João Lucas tem suas qualidades. Por exemplo, ele é rico. Falando nisso, já tenho que ir. Combinei de ir com ele para o almoço na casa da Pat.
(Paloma beija Lucas, levanta-se e se veste)
PALOMA: A gente se vê lá?
LUCAS: Com certeza, Bianca.
PALOMA: É Paloma, Lucas. Bianca é coisa do passado.
Cena 5/ Casa de Paulina e Rafael/ Suíte do casal/ Interno/ Dia
(Paulina e Rafael estão fazendo sexo – Paulina em cima de Rafael. (ao som do refrão de Love me Harder – Ariana Grande). Ao parar com a ação, Paulina se deita ao lado do marido)
PAULINA: Eu te amo, sabia?
RAFAEL: Sabia. Apesar de que iremos votar em candidatos diferentes nas eleições.
PAULINA: Isso não importa. O amor é maior do que tudo.
(Eles se beijam. O celular de Rafael soa um bip)
RAFAEL: Dez da manhã. Temos compromisso com a Patrícia.
PAULINA: Ah, é verdade.
RAFAEL: Paulina, nada de falar sobre aquilo pra ninguém.
PAULINA: Pode ficar tranqüilo, meu amor, Isso é um segredo nosso.
(Paulina abraça Rafael, e suas mãos acariciam as costas do rapaz. A CAM foca nas costas dele, que tem uma tatuagem da suástica nazista)
Cena 6/ Ônibus/ Interno/ Dia
(Ônibus lotado. Beatriz, com muitas sacolas nos dois braços, está em pé)
BEATRIZ (chamando a atenção de um adolescente com fones de ouvido que está sentado): Ô menino, você que é mais novo, sai daí. Estou cheia de sacola na mão. Estou indo pra casa de uma amiga que não vejo há muito tempo. Parece que lá o negócio vai ter muita gente. Aproveito e vendo alguma muamba para alguém. (ao perceber que o menino não esboçou nenhuma reação, ela arranca os fones de ouvido dele): Você estava me escutando, garoto?
GAROTO: Senhora, me devolva meus fones.
BEATRIZ: Vou devolver o escambau. Sai desse lugar. Vambora, que eu quero sentar.
(Beatriz puxa o menino, que escorrega do banco e cai no chão do ônibus. Ela aproveita e senta no lugar que era dele)
GAROTO: Grossa.
BEATRIZ: Pega teus fones.
(Beatriz joga os fones do menino no chão, que pega e sai)
Cena 7/ Mansão Handini/ Sala de estar/ Interno/ Dia
(Maria Marta, Cláudio e João Lucas sentados no sofá)
MARIA MARTA: Você quer mesmo esperar essa menina, filho? Está mais do que na cara que a sua namorada arranjou outro meio de ir ao apartamento da Patrícia.
JOÃO LUCAS: Ela não faria isso comigo sem me avisar com antecedência. Além de que tudo foi combinado entre a gente. A Paloma deve estar chegando.
CLÁUDIO: Paloma. Lembro como se fosse ontem do dia em que essa menina se chamava Bianca. Mudou o nome e ninguém sabe o porquê. Você sabe, filho?
JOÃO LUCAS: Ela nunca me disse nada, mas também nunca pressionei para ela me contar.
MARIA MARTA: Porque é frouxo. Como você quer casar com uma menina que troca de nome sem motivo nenhum? Não posso ter parido um filho assim.
(Paloma entra)
PALOMA: Demorei?
MARIA MARTA: Bastante. Você está achando que isso aqui é a casa da mãe Joana para você marcar compromisso na hora que quer? Que isso nunca mais se repita. Não nasci para esperar os outros. Nasci para que os outros me esperem.
(Todos saem)
Cena 8/ Apartamento de Patrícia e André/ Sala de estar/ Interno/Dia
(A campainha toca. Patrícia atende)
PATRÍCIA: Téo.
TÉO: Olá querida.
(Eles se abraçam)
TÉO: Sentiu minha falta, bem?
PATRÍCIA: Muita. Fico feliz por ter vindo. Fique a vontade.
...
(A campainha toca. André atende)
ANDRÉ: José Pedro.
JOSÉ PEDRO: Tudo bem?
ANDRÉ: Tudo na paz.
JOSÉ PEDRO: Como você é otimista. Essa paz está com os dias contados.
(José Pedro passa por ele, vê Patrícia e a abraça)
...
(A campainha toca. A família de Maria Marta é atendida por Patrícia)
PATRÍCIA: Maria, Cláudio, João, Paloma. Fiquem à vontade.
...
(A campainha toca. É Beatriz, que chega ao mesmo tempo com Pilar e Félix. André atende e todos se cumprimentam)
...
(A campainha toca. André atende Rafael e Paulina)
...
(A campainha toca. É Lucas. Patrícia atende)
PATRÍCIA: Lucas, querido. Fique à vontade.
(Lucas passa por ela. Na hora que Patrícia vai fechar a porta, uma mão a impede. É a mão de Cristina)
CRISTINA: Olá Patrícia. É impressão minha ou eu fui a única que não foi oficialmente convidada para a festinha?
(Cristina dá um sorriso irônico. Patrícia a encara)
ATO 02
Cena 9/ Apartamento de André e Patrícia/ Sala de estar/ Interno/ Dia
PATRÍCIA: Cristina. Não estou surpresa em te ver.
CRISTINA: Então você sabia que eu viria?
PATRÍCIA: Claro. Ao contrário do que você pensa, eu te convidei sim. Passei seu convite pelo Lucas.
CRISTINA: Mas não teve a decência de ligar para o meu telefone e falar comigo.
PATRÍCIA: Não houve necessidade, já que você e ele dividem o mesmo apartamento.
CRISTINA: Ah claro. Lembrei que sua operadora é a TIM. Ficar gastando telefonema é dose.
(André se aproxima e entra na conversa)
ANDRÉ: Oi Cristina.
CRISTINA: Olá, André. Nossa, como você está bonito.
ANDRÉ: Obrigado.
CRISTINA: Tenho certeza que se você estivesse ainda comigo, você estaria bem melhor.
(Cristina dá um sorrisinho e senta-se no sofá, com os outros convidados. Patrícia fecha a porta e, juntamente com André, senta-se com eles)
PATRÍCIA: Bom, gente, eu chamei vocês até aqui porque eu tenho um convite a fazer.
MARIA MARTA: Outro?
BEATRIZ: Fala logo. Qualquer convite, eu estou aceitando.
FÉLIX: Pobre é mesmo uma lástima.
TÉO: Quietos. Diga o que você tem a dizer, Pat. Vou até filmar.
PATRÍCIA: Não é necessário, Téo.
TÉO: FALA LOGO!
PATRÍCIA: Bom, eu estive pensando ultimamente no acampamento que fizemos 10 anos atrás e fiquei com vontade de acampar novamente com vocês, todos nós, juntos, um programa fraternal como aquele. O que vocês acham?
PILAR: Acho que não é uma boa ideia.
PAULINA: Você nem estava no acampamento passado, Pilar.
JOÃO LUCAS: Isso mesmo. Não tem direito de opinar.
FÉLIX: Cala a boca, seu pirralho mal comido. A opinião dela vale mais do que a de vocês juntos, porque ela é a mãe do único que presta nessa rodinha.
RAFAEL: Mereço ouvir uma baitolagem dessas.
PALOMA: Parem de besteira.
CLÁUDIO: O que vocês acham?
CRISTINA: Sinto que perdi meu tempo vindo aqui.
JOSÉ PEDRO: Sinto o mesmo.
ANDRÉ: Será que dá pra só um falar ou ta difícil?
PATRÍCIA: CHEGA!
(Todos se calam)
PATRÍCIA: Apenas digam sim ou não. Querem ou não esse novo acampamento?
Cena 10/ Apartamento de Patrícia e André/ Recepção/ Interno/ Tarde
(Todos da cena 08 dispostos na recepção do prédio onde Patrícia e André moram)
PATRÍCIA: Eu e André agradecemos imensamente a presença de vocês, além do fato de aceitarem o convite para o novo acampamento.
CRISTINA (para si mesma): Mal sabe essa sonsa o que estou planejando.
MARIA MARTA: Falou alguma coisa, Cris?
CRISTINA: Para você, é Cristina.
(Cristina sai)
MARIA MARTA: Garotinha petulante.
CLÁUDIO: Nós que agradecemos, Patrícia.
ANDRÉ: Bom, eu e Patrícia já iremos subir. Amanhã, nos encontramos na saída da cidade em direção à reserva florestal do camping.
(André e Patrícia sobem a escada)
JOÃO LUCAS (para Cláudio e Maria Marta): Vocês viram a Paloma por aí?
CLÁUDIO: Não vi.
MARIA MARTA: Deve estar trocando de nome novamente. Quem sabe, dessa vez ela passe a se chamar Kelly. Do jeito que ela é maluca.
(João Lucas e os pais saem. CAM vai para Beatriz, que se aproxima de Pilar e Félix)
BEATRIZ: Pilar, eu fico feliz que você irá ao acampamento.
PILAR: Obrigada, querida.
BEATRIZ: Por acaso, vocês se interessariam por algo? Trouxe vários produtos para vender.
FÉLIX: Desculpe, eu e mamãe não compramos coisas que vem das mãos de uma sacoleira
(Félix e Pilar saem. Pilar acaba ficando frente a frente com Maria Marta, que a olha, mas depois a ignora)
PILAR: Nojenta. Não sabe o que a espera.
FÉLIX: Mamãe, olhe lá o que vai fazer.
PILAR: Essa semana será bastante produtiva pra mim, meu filho. Vou vingar a morte do Maciel.
FÉLIX: Que bom que será para você, porque para mim, eu acho bem difícil que seja.
PILAR: Está falando do Cláudio?
FÉLIX: De quem mais seria? Ele foi meu primeiro amor. Estou com medo que esse amor volte durante esse acampamento.
(A CAM foca em Beatriz, que se aproxima de Paulina e Rafael)
BEATRIZ: Como estão os recém-casados?
RAFAEL: Estamos bem.
BEATRIZ: Que ótimo.
PAULINA: Bia, eu fiquei sabendo da sua condição.
BEATRIZ: Culpa da Maria Marta e do Cláudio. Casalzinho de merda, amigos da onça. Vocês sabem que o Cláudio é contador, não sabem? Pois então. Ele e a esposa dele, que fingia ser minha melhor amiga, me convenceram a investir todo meu dinheiro em um projeto que foi pras cucuias. Investi porque eu confiei neles. Desgraçados. Meu dinheiro todo deve estar em um dos cofres que aquele maldito tem na Suíça. Mas eles vão me pagar por esse golpe.
Cena 11/ Apartamento de Patrícia e André/ Frente/ Externo/ Tarde
(Maria Marta e Cláudio saem do prédio, passam pela calçada e se deparam com Téo)
TÉO: Ora, ora, ora. Se não é a Claudete hétera.
CLÁUDIO: Estava demorando para você vir me importunar.
MARIA MARTA: Vamos embora. Não somos obrigados a dar ibope para esse jornalista chinfrim.
TÉO: Vocês já foram mais educados, sabia?
CLÁUDIO: Saia da nossa frente, Téo.
TÉO: Saio quando eu quiser, querido. Claudete, amiga, como se sente indo para esse acampamento? Não vá ter recaídas com o Félix, hein?
(Téo solta uma gargalhada. Cláudio dá um soco nele, que cai)
MARIA MARTA: Esse soco prova o quanto meu marido é macho.
TÉO (levantando-se): Iludida. Bem se vê que não conhece o marido que tem.
(João Lucas se aproxima deles)
JOÃO LUCAS: Algum de vocês viu a Paloma?
MARIA MARTA: Pela milésima vez, não.
TÉO: Se você está falando da Bianca, eu a vi indo em direção àquela esquina.
(Téo aponta a esquina. João Lucas sai)
TÉO: Nos vemos no acampamento, queridos. Ah, e esse soco vai ter volta.
CLÁUDIO: Vai mesmo? Em forma de purpurina, por acaso?
TÉO: Não, em forma de tanque de guerra rosa mesmo.
(Téo sai.)
MARIA MARTA: Bicha.
CLÁUDIO: Vamos logo embora daqui.
Cena 12/ Rua/ Carro de Cristina/ Interno/ Tarde
(Cristina está dentro do carro, pronta para dar a partida. José Pedro, do lado de fora, bate no vidro do seu carro. Ela o abaixa)
CRISTINA: Se veio pedir carona, pode preparar o dinheiro da passagem de ônibus, porque eu não darei carona nenhuma. Não sou nenhuma Madre Teresa de Calcutá.
JOSÉ PEDRO: Não preciso da sua carona, eu tenho carro, que por sinal, é bem melhor do que essa sua lata velha. Afinal, sou rico, ao contrário de você.
CRISTINA: O que você quer?
JOSÉ PEDRO: Conversar.
CRISTINA: Não tenho nada para conversar com ninguém daqui.
JOSÉ PEDRO: Mas é um assunto importante.
CRISTINA: José Pedro, eu estou com pressa.
JOSÉ PEDRO: Tudo bem. Já que você vai mesmo para o acampamento, podemos ter essa conversa lá. Até amanhã.
(José Pedro sai. Cristina levanta o vidro abaixado, dá a partida no seu carro e sai)
Cena 13/ Rua/ Esquina/ Interno/ Tarde
(João Lucas caminha pela calçada. Ele dobra a esquina e se espanta ao ver Paloma e Lucas aos beijos)
JOÃO LUCAS: Paloma?
PALOMA (deixando de beijar Lucas, ainda abraçada a ele): João?
JOÃO LUCAS: O que significa isso?
(Close alternado entre os três. Congela em João Lucas)
JOÃO LUCAS: Paloma?
PALOMA (deixando de beijar Lucas, ainda abraçada a ele): João?
JOÃO LUCAS: O que significa isso?
(Close alternado entre os três. Congela em João Lucas)

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