terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Velhos Tempos - Capítulo 20



Cena 1/ Vila Prata/ Casa Juscelino/ Sala de estar/ Interno/ Tarde
(Continuação imediata da última cena do capítulo anterior)
CASSANDRA: Podemos conversar?
JOCA: Eu não tenho nada para conversar com você, Cassandra. Vai embora.
CASSANDRA: Joca, não faz isso comigo. Estou me sentindo tão culpada pela sua demissão. Ouça o que eu tenho para te dizer.
JOCA: Cassandra, fique longe de mim. É só que eu te peço.
CASSANDRA: Tudo bem. Eu ficarei longe de você, mas você terá que me escutar agora.

Cena 2/ Vila Prata/ Casa Juscelino/ Quarto Joca/ Interno/ Tarde
(Joca e Cassandra em pé, frente a frente)
JOCA: Fale rápido, por favor, antes que o padrinho chegue.
CASSANDRA: Joca, eu vim te pedir desculpas.
JOCA: Eu já fui demitido, Cassandra. Aceitar as suas desculpas não vai adiantar nada.
CASSANDRA: Claro que vai. Eu ficarei com a minha consciência menos pesada. Joca, se eu soubesse que meu pai chegaria ao pasto naquele momento, eu não teria te beijado.
JOCA: Você não tinha o direito de ter me agarrado daquele jeito.
CASSANDRA: Foi tudo tão repentino e tão estranho que parece que aquele flagra foi armado. Claro, talvez alguém induziu meu pai a nos dar um flagrante.
JOCA: Você acha? Cassandra, isso não faz sentido. Quem armaria aquele flagra?
CASSANDRA: A Carlota, claro. Ela é a única que tem motivos para isso.
JOCA: Você está errada. Eu e a Carlota reatamos. Ela não teria motivos para armar o flagrante.
CASSANDRA: Como não? Ela me odeia, ela quer me destruir. Joca, a Carlota sabia que aquele flagrante culminaria na sua demissão e que, por conseqüência, você jogaria a culpa em mim.
JOCA: Chega. Eu não admito que você fale mal da Carlota na minha frente.
CASSANDRA: Joca, eu confesso que sou apaixonada por você e que fiz coisas nada legais para te afastar da Carlota, como aquela ameaça. Mas a minha irmã não é essa santinha pura e doce que você pensa. Espero que eu esteja perdoada.
(Cassandra sai)

Cena 3/ Mansão Bovary/ Sala de estar/ Interno/ Tarde
(Nuno sentado em uma poltrona. Clarissa aparece com um copo de água nas mãos e entrega para Nuno, que bebe.)
CLARISSA: Desculpe mais uma vez por não ter te oferecido um chá ou um suco. No momento, estou sem cozinheira.
NUNO: Sem problemas.
CLARISSA: Agora me explique direito essa história de testamento, por favor.
NUNO: Como eu já havia dito, na última vez em que a dona Eva foi à capital, ela me procurou com a pretensão de fazer um testamento. Agora que ela se foi, vim para cá para que esse testamento seja aberto.
CLARISSA: Certo. Mas, Nuno, eu acredito que esse não seja o melhor momento para se abrir o testamento de minha mãe.
NUNO: E por que não?
CLARISSA: Eu tenho um irmão que está voltando de Londres. Eu acho melhor que esse testamento seja aberto quando ele já estiver em Vila Prata. O que acha de nós o esperarmos?

Cena 4/ Mansão Sabarah/ Quarto de Cassandra, Cassilda e Carlota/ Interno/ Tarde
(Cassilda está deitada em sua cama, lendo um livro. Bonavante entra)
BONAVANTE: Oi.
CASSILDA: Oi.
BONAVANTE: Lendo um livro. Sua mãe também gostava muito de ler. Ela lia qualquer tipo de livro, dos sonetos aos mais vastos romances.
CASSILDA: Não sabia que eu me parecia tanto com ela.
BONAVANTE: Você e a Carlota parecem demais com a Madalena, em tantos aspectos. É impressão minha ou você está mais sorridente, alegre, feliz?
CASSILDA: Impressão, pai.
BONAVANTE: Não tente me enganar, Cassilda. Eu posso saber o que está te causando tanta animosidade?
CASSILDA: O que eu posso dizer é que o senhor estava com a razão quando me mandou sair de casa, respirar novos ares.
(Alzira entra)
ALZIRA: Doutor Bonavante, o senhor tem visita.

Cena 5/ Mansão Sabarah/ Gabinete/ Interno/ Tarde
(Bonavante e Juscelino sentados à mesa)
BONAVANTE: Padre Juscelino. Presumo que tipo de assunto lhe trouxe aqui. A demissão do Joca?
JUSCELINO: Exatamente. E não pense que eu vim questionar a demissão do meu afilhado. Para ser sincero, eu adorei que isso tenha acontecido. Assim, o Joca poderá se dedicar mais à paróquia.
BONAVANTE: Se veio falar sobre o salário, não se preocupe. O Joca receberá a quantia equivalente aos três dias que ele trabalhou.
JUSCELINO: Doutor Bonavante, eu vim para lhe fazer um pedido. Mantenha sua filha Cassandra afastada do meu afilhado.
BONAVANTE: Como?
JUSCELINO: Em breve, Joca se tornará padre e eu não quero mulher nenhuma o importunando. Se o senhor não fizer isso, o senhor pode ter certeza que eu mesmo farei. E da maneira mais drástica possível.
(Juscelino encara Bonavante)

Cena 6/ Vila Prata/ Casa Juscelino/ Quarto Joca/ Interno/ Tarde
(Ariana e Joca, em pé)
ARIANA: Você não pode acreditar nas palavras da Cassandra, Joca. Ela quer destruir seu relacionamento com a Carlota. Você não vê isso?
JOCA: Eu estou bastante confuso, Ariana.
ARIANA: Joca, você e a Carlota reataram o namoro. Ela não teria motivos para armar aquele flagrante. E mesmo se tivesse, isso não faz parte do feitio dela. Isso é mentira da Cassandra.
JOCA: Ariana, eu preciso que você me faça um favor.
ARIANA: Qual?
JOCA: Você poderia ir à mansão Sabarah passar um recado para a Carlota?
(Joca encara Ariana)

Cena 7/ Paisagens da Propriedade Sabarah/ Noite

Cena 8/ Mansão Sabarah/ Sala de estar/ Interno/ Noite
(Ariana e Carlota, em pé)
CARLOTA: O Joca quer falar comigo?
ARIANA: Urgentemente. E ainda hoje.
CARLOTA: Ele disse aonde quer se encontrar comigo?
ARIANA: No local de sempre.

Cena 9/ Mansão Bovary/ Sala de estar/ Interno/ Noite
(Alguém bate na porta. Clarissa atende)
CLARISSA: Você? Nós não temos nada para conversar.
MARILDA: Eu juro que essa é a última conversa que teremos, se você quiser. Posso entrar?
(Marilda entra e Clarissa fecha a porta)
CLARISSA: Seja breve, por favor.
MARILDA: Eu recebi uma proposta para trabalhar em uma casa na capital.
CLARISSA: E o que eu tenho a ver com isso?
MARILDA: Eu só quis deixar claro que essa pode ser a última vez que você me vê.
CLARISSA: Bom, se é só isso, sinta-se convidada a se retirar da minha casa.
MARILDA: Tem mais uma coisa. Eu vim disposta a te contar por que eu te entreguei para a dona Eva quando você nasceu.
CLARISSA: Eu não estou interessada.
MARILDA: Mas é a sua história, Clarissa.
CLARISSA: A minha história é a de que eu nasci da Eva e sempre serei filha dela. Você foi apenas uma passagem insignificante na minha vida.
MARILDA: De qualquer forma, você não pode virar as costas para o fato de eu ser sua mãe biológica. Não pense que eu vim reivindicar o meu direito materno. Eu só quero explicar como tudo se deu e o que me fez tomar a decisão que eu tomei.
CLARISSA: Eu não quero saber.
MARILDA: Clarissa, a dona Eva sempre quis ter uma filha mulher. Após o nascimento do Sávio, ela descobriu que não poderia mais ter filhos. Aquilo a frustrou de uma maneira tão intensa que, quando ela descobriu que eu estava grávida de você, eu não tive como me recusar a te entregar para ela.
CLARISSA: Falsa mentirosa. A verdade é que você nunca me amou. Mães que amam suas filhas não fazem o que você fez comigo.
MARILDA: Clarissa, eu tinha uma dívida com a dona Eva por coisas essenciais que ela fez por mim antes de eu engravidar. Eu não poderia me dar ao luxo de recusar quando ela me pediu para te criar. Além disso, eu estaria presente para ver o seu crescimento, o seu desenvolvimento, como sempre estive.
CLARISSA: Mas quando eu falei ‘mamãe’ pela primeira vez, eu estava me referindo à Eva, não a você. Isso não doeu?
MARILDA: Claro que doeu, Clarissa, mas o sacrifício valia a pena. Criada pela dona Eva, você teve uma vida que eu nunca poderia te oferecer. Eu fiz o que fiz pensando no seu bem.
CLARISSA: Chega. Eu não quero ouvir mais nada. Vá embora, suma da minha vida e nunca mais retorne. Fora daqui.
MARILDA: Se é o que você quer, tudo bem. Passar bem, Clarissa.
(Marilda sai. Clarissa chora.)

Cena 10/ Mansão Bragança/ Quarto Gertrude/ Interno/ Noite
(Gertrude está arrumando seu guarda-roupa. Viriato entra)
VIRIATO: Olá, Gertrude.
GERTRUDE: Doutor Viriato, o que o senhor está fazendo aqui? A dona Laurinda pode entrar e nos pegar aqui.
VIRIATO: Não se preocupe com a Laurinda, Gertrude.
GERTRUDE: Ela acha que você tem uma amante. Até me pediu ajuda para descobrir a identidade da moça.
VIRIATO: O que importa é que ela não desconfia de você.
GERTRUDE (aproximando-se de Viriato e acariciando os ombros dele): Mas o que o senhor está fazendo aqui? Veio passar outra noite comigo?
VIRIATO: Na verdade, eu vim te pedir um favor.
(Viriato encara Gertrude)

Cena 11/ Mansão Sabarah/ Gabinete/ Interno/ Noite
(Simão e Bonavante sentados à mesa)
BONAVANTE: E enquanto eu estava conversando com a Cassilda, eu não notei nenhuma semelhança dela comigo.
SIMÃO: Impressão sua, doutor Bonavante.
BONAVANTE: O que me deixa aliviado é que eu não notei também nada parecido entre ela e o desgraçado do Viriato.
SIMÃO: Doutor Bonavante, a dona Cassilda é sua filha. Ponto. O senhor não devia dar tanta importância para as mentiras daquele desgraçado.
(Cassandra entra)
CASSANDRA: Mandou me chamar, pai?
SIMÃO: Com licença.
(Simão sai)
BONAVANTE (levantando-se): Cassandra, eu serei curto e grosso com você. Fique longe do Joca.
CASSANDRA: Como? Mas hoje mesmo o senhor disse que não se importaria caso eu namorasse o Joca.
BONAVANTE: Eu retiro o que disse.
CASSANDRA: O senhor não tem palavra, pai?
BONAVANTE: Chega, sua moleca. Fique longe daquele garoto ou eu mesmo tratarei de te manter afastada dele.
(Cassandra sai)

Cena 12/ Vila Prata/ Praça/ Interno/ Noite
(Joca sentado em um banco. Carlota chega e senta-se ao lado dele)
CARLOTA: Olá.
JOCA: Que bom que você veio.
(Carlota e Joca se beijam)
CARLOTA: Ariana me disse que você precisava falar comigo urgentemente. Fiquei preocupada.
JOCA: Carlota, eu ainda estou um pouco confuso com a minha demissão.
CARLOTA: Tudo culpa da Cassandra.
JOCA: Claro que a Cassandra tem culpa, mas eu acredito que haja outra pessoa por trás disso tudo.
CARLOTA: Como?
JOCA: Eu acho que o doutor Bonavante não apareceu casualmente no pasto quando ele viu a Cassandra me beijando. Eu acho que ele foi atraído até lá para dar aquele flagrante.
CARLOTA: Mas por que você acha isso, Joca? Isso não faz sentido.
JOCA: Carlota, seja sincera comigo, por favor. Foi você quem armou aquele flagrante? Foi você quem atraiu seu pai para o pasto justo naquele momento?
CARLOTA: O quê?
(Carlota encara Joca)

Cena 13/ Mansão Bragança/ Sala de estar/ Interno/ Noite
(Charles entra e se depara com Laurinda)
LAURINDA: Estava com a Cassilda?
CHARLES: Sim. Cadê o papai?
LAURINDA: Acabou de sair com a Gertrude?
CHARLES: Com a Gertrude? Abra o olho, mamãe.
LAURINDA: O que você está insinuando, Charles?
(Pausa)
LAURINDA: Quer saber? Esquece. Eu sei que você está tentando mudar de assunto para não falarmos sobre o seu namoro com a Cassilda.
CHARLES: Por que o meu relacionamento lhe interfere tanto? A senhora nunca foi de intrometer tanto nos meus namoros.
LAURINDA: Mas esse é diferente. Você já contou para a Cassilda que você é filho do Viriato?
CHARLES: Ainda não, mãe.
LAURINDA: Ainda não? Charles, você pretende enganar essa moça até quando? Pois trate de contar para ela que você é filho do Viriato ou eu mesma conto.
CHARLES: Isso é um ultimato?
LAURINDA: Pode ter certeza que sim.

Cena 14/ Mansão Bovary/ Sala de estar/ Interno/ Noite
(Alguém bate na porta. Clarissa atende)
CLARISSA: Oi, Cassandra. Entra.
CASSANDRA: Oi. Nossa, que cara é essa? Você estava chorando?
CLARISSA: Infelizmente, sim. Acabei de receber a Marilda e nós tivemos uma conversa bastante intensa.
CASSANDRA: E o que ela veio fazer aqui?
CLARISSA: Quis me explicar por que me entregou para a Eva. De qualquer forma, eu não a perdoei por nada que ela fez.
CASSANDRA: Você está certa, Clarissa. Aquela mulher te entregou para a dona Eva como se entrega um par de sapatos. Ela tem que sofrer por isso. Tanto ela como a Carlota, não é mesmo?
CLARISSA: Como?
CASSANDRA: Clarissa, a Carlota escondeu a verdade sobre o seu nascimento de você. E nem pensou duas vezes quando resolveu espalhar esse assunto para as pessoas. Ela te traiu e precisa pagar por isso.
CLARISSA: Ah, eu não sei, Cassandra.
CASSANDRA: Como não sabe? Você precisa fazer justiça, Clarissa. E quando eu digo justiça, eu digo vingança. Você tem que se vingar da Carlota e fazê-la pagar pela traição que cometeu a você.
(Cassandra encara Clarissa)

Cena 15/ Mansão Sabarah/ Gabinete/ Interno/ Noite
(Bonavante sentado à mesa, pensativo. Viriato e Gertrude entram)
VIRIATO: Sozinho como sempre.
BONAVANTE (levantando-se): O que você está fazendo aqui, seu vagabundo? Será que eu terei que contratar seguranças para impedir a sua entrada na minha casa?
VIRIATO: Eu acho necessário, afinal esse pessoal mixuruca que você denomina de capatazes não conseguem dar conta de mim.
BONAVANTE: Fora daqui, seu verme.
VIRIATO: Calma, Bonavante. Eu notei que você não deu muito crédito à revelação que eu te fiz, então eu trouxe a Gertrude para confirmar o que eu te falei.
BONAVANTE: Eu não vou ouvir nada. Fora daqui antes que eu ponha você e sua amiguinha para fora com as minhas próprias mãos.
VIRIATO: Fala pra ele, Gertrude.
GERTRUDE: Doutor Bonavante, eu fui amiga e confidente da Madalena por muito tempo. Ela...
BONAVANTE: Ah me poupe. Você acha que eu irei acreditar nas suas palavras, que foram obviamente compradas por esse desgraçado?
GERTRUDE: O que eu vou falar aqui é a mais pura verdade, doutor Bonavante. A própria Madalena me disse que tinha tido um breve caso com o doutor Viriato semanas antes de descobrir a gravidez. A Cassilda é filha do doutor Viriato.
(Close alternado entre os dois. Congela em Bonavante)

FIM DO CAPÍTULO

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