Cena 1/ Mansão Bovary/ Sala de estar/ Interno/ Noite
(Alguém bate na porta. Clarissa atende)
CLARISSA: Cassandra?
CASSANDRA: Clarissa, eu preciso desabafar com alguém. Eu acabei de fazer uma besteira.
CLARISSA: Não dá para ser outra hora? Eu já tenho um compromisso marcado agora.
CASSANDRA: Então desmarca esse compromisso. Eu estou precisando de um ombro amigo e você não pode me negar isso.
(Cassandra encara Clarissa)
Cena 2/ Mansão Bovary/ Cozinha/ Interno/ Noite
(Cassandra sentada à mesa. Clarissa entrega um copo de água com açúcar para Cassandra e se senta à mesa)
CLARISSA: Agora você pode me explicar o que aconteceu?
CASSANDRA: Eu matei um homem.
CLARISSA: O quê? Cassandra, como isso foi acontecer?
CASSANDRA: Eu atropelei o padre Juscelino.
CLARISSA: Propositalmente?
CASSANDRA: Ele queria transformar o Joca em padre, sendo que o Joca não queria isso. Eu precisava salvá-lo das loucuras do padrinho dele. eu tive que fazer isso, Clarissa.
CLARISSA: E agora, Cassandra?
CASSANDRA: Agora que a frente do carro do meu pai está toda amassada e eu ainda não sei que desculpa usar para despistá-lo. Mas eu me viro. Só de ter contado isso pra alguém, eu já me sinto bem melhor. Vê se não conta para ninguém, hein?
CLARISSA: Claro que não contarei.
CASSANDRA (levantando-se): Já vou indo. Depois nos falamos mais. No fim das contas, eu nem atrapalhei seu encontro, viu?
(Cassandra sai. Clarissa, abalada)
Cena 3/ Mansão Bragança/ Quarto Laurinda e Viriato/ Interno/ Noite
(Laurinda deitada, lendo um livro. Viriato entra)
LAURINDA: Veio passar essa noite ao meu lado?
VIRIATO: Vim ter uma conversa séria com você.
LAURINDA: Sobre?
VIRIATO: Laurinda, eu ouvi a conversa que você e o Charles tiveram hoje mais cedo. Não toda, mas o suficiente para descobrir que o meu filho está namorando a Cassilda.
LAURINDA: Eles se amam, Viriato. Eu não admito que você atrapalhe o relacionamento do nosso filho.
VIRIATO: Você acha que esse foi o tipo de futuro que eu sonhei para o Charles, Laurinda? Que ele namorasse a filha do meu maior inimigo?
LAURINDA: Eu já disse, Viriato. Essa rivalidade que consome você e o Bonavante não vai afetar o relacionamento dos dois.
VIRIATO: Não se preocupe, Laurinda. O destino já se encarregou disso.
LAURINDA: O que você quer dizer com isso?
VIRIATO: A Cassilda não é filha do Bonavante. Ela é minha filha, Laurinda. A Cassilda e o Charles são irmãos.
(Viriato encara Laurinda)
Cena 4/ Mansão Sabarah/ Quarto Cassandra, Cassilda e Carlota/ Interno/ Noite
(Cassilda sentada em sua cama. Carlota entra. Cassilda levanta-se ao ver a irmã e se aproxima dela)
CASSILDA: Carlota, ainda bem que você chegou. Onde você estava?
CARLOTA: Estava conversando com a Marilda. Você sabia que ela irá trabalhar em uma casa na capital? Ela desistiu mesmo da Clarissa.
CASSILDA: Que pena, mas eu acho que você precisa lidar com um assunto muito mais urgente.
CARLOTA: Como assim?
CASSILDA: O papai descobriu que você e o Joca já foram namorados.
CARLOTA: O quê? Mas como isso foi acontecer?
CASSILDA: Eu não sei direito. Parece que foi a Clarissa que contou para ele. O que importa é que papai acabou de sair daqui furioso dizendo que vai matar o Joca.
CARLOTA: Ai meu Deus, eu preciso impedir o papai de fazer alguma besteira.
(Carlota sai)
CASSILDA: Espere, Carlota, eu vou com você.
(Cassilda sai)
Cena 5/ Vila Prata/ Casa Juscelino/ Quarto Joca/ Interno/ Noite
(Joca deitado em sua cama. Bonavante entra, furioso. Ariana vem logo atrás)
BONAVANTE: Aí está você, seu desgraçado.
JOCA (levantando-se): Doutor Bonavante, o que o senhor veio fazer aqui?
BONAVANTE: Eu vim cortar o mal pela raiz.
ARIANA: Joca, cuidado.
BONAVANTE: Saia daqui, garota. Isso aqui é assunto de homem para homem.
JOCA: Saia, Ariana, por favor.
(Ariana sai)
JOCA: Isso é jeito de entrar na casa dos outros, doutor Bonavante?
BONAVANTE: Cala a boca, seu moleque. Eu vim acabar com você, seu ordinário.
JOCA: Doutor Bonavante, se isso ainda é sobre aquele beijo que a Cassandra...
BONAVANTE: Não bastou seduzir a Cassandra, você tinha que se envolver com a Carlota também? Com a minha filha predileta.
JOCA: O quê?
BONAVANTE: Vai se fazer de desentendido pra cima de mim?
JOCA: Doutor Bonavante, acalme-se. Nós podemos sentar e conversar civilizadamente.
BONAVANTE: EU NÃO QUERO SER CIVILIZADO COM VOCÊ. Eu quero acabar com você. Não só quero como irei.
JOCA: Eu posso explicar, doutor Bonavante. O que houve entre mim e a Carlota não foi um mero envolvimento. Foi amor, é amor. Eu ainda amo a sua filha.
BONAVANTE: Cara de pau. Você se aproveitou da pureza, da doçura, da ingenuidade da minha filha pra se promover, pra se infiltrar na minha família, não foi? Confessa.
JOCA: Não, claro que não.
BONAVANTE: Desde quando, hein? Desde antes de você me salvar daquele maldito atentado? Ah, Joca, você irá se arrepender amargamente por isso. E será agora.
(Bonavante saca o revólver e aponta na direção de Joca, que engole a seco)
Cena 6/ Mansão Bragança/ Quarto Laurinda e Viriato/ Interno/ Noite
(Continuação imediata da cena 03 deste capítulo)
LAURINDA: A Cassilda é sua filha? Ai meu Deus, isso não pode ser verdade. Desde quando, Viriato?
VIRIATO: Eu descobri quando a Madalena veio até a nossa casa e acabou morrendo. Ela me confessou isso, mas eu não me importei. A Cassilda já era adulta, já reconhecia o Bonavante como pai, além de que eu mesmo não queria assumi-la como minha filha.
LAURINDA: Desgraçado, monstro. Agora faz todo o sentindo você querer assumir a paternidade da garota, não é? Só para atingir o Bonavante. Isso não pode estar acontecendo. A Cassilda e o Charles irmãos? Meu Deus, eles estão cometendo incesto.
VIRIATO: Você precisa falar com ele, Laurinda. Essa situação não pode mais acontecer.
LAURINDA: Eu falar com o Charles? É você que deve ter essa conversa com ele.
VIRIATO: O Charles sempre foi mais ligado a você. Por favor, Laurinda.
LAURINDA: Tudo bem, Viriato, mas farei isso por ele, porque o nosso filho merece saber da verdade. E quanto a você, eu não quero olhar na sua cara tão cedo. Hoje você dorme em qualquer outro lugar, mas nesse quarto não.
VIRIATO: Certo. Eu não irei te enfrentar porque eu sei que, no fundo, o errado dessa história sou eu. Boa noite.
(Viriato sai, com um sorriso cínico. Laurinda abalada, com os olhos lacrimejantes)
Cena 7/ Vila Prata/ Restaurante/ Interno/ Noite
(Nuno e Clarissa jantam)
NUNO: Está gostando do ambiente?
CLARISSA: Claro, é tão confortável e aconchegante. É maravilhoso.
NUNO: Você é uma garota encantadora, Clarissa.
CLARISSA: E você é um rapaz especial, Nuno.
(Os dois trocam olhares por um bom tempo)
CLARISSA: Nuno, será que você poderia me tirar uma dúvida que está me incomodando bastante?
NUNO: Claro. É sobre?
CLARISSA: Herança.
NUNO: Clarissa, nós combinamos que não iríamos tratar sobre esses temas técnico-jurídicos durante o jantar.
CLARISSA: Eu sei, mas é porque isso está me incomodando bastante.
NUNO: Tudo bem, então. Qual é sua dúvida?
CLARISSA: Eu descobri recentemente que eu não sou filha biológica da Eva. Isso afeta negativamente quando eu for receber a minha herança?
NUNO: Clarissa, a lei diz que você é filha da Eva e isso é o que de fato importa. Se a lei reconhece isso, não se preocupe, pois nada irá afetar o recebimento da sua herança.
CLARISSA: Ah, que maravilha. Fico mais aliviada.
(Clarissa sorri para Nuno, que revida com outro sorriso)
Cena 8/ Vila Prata/ Casa Chester/ Sala de jantar/ Interno/ Noite
(Dorotéia, Elizeu, Vitorino, Marcílio e Liduína estão sentados à mesa, jantando)
LIDUÍNA: A mãe Soraya fez uma nova previsão. Ela disse que essa noite seria bastante difícil para todos nós.
ELIZEU: E você acredita nisso, minha filha? Você não percebe a charlatã que essa mulher é?
LIDUÍNA: Charlatã, nada. Ela previu meu atropelamento e salvou a minha vida ou o senhor se esqueceu disso, pai?
ELIZEU: Vamos mudar de assunto, certo? Ah, Marcílio, a Clarissa veio hoje aqui me cobrando o dinheiro que você roubou dela na estrada. Você se lembra?
MARCÍLIO: Claro, pai.
ELIZEU: Tive que pegar o dinheiro do prêmio da Liduína para pagar a moça.
LIDUÍNA: O quê? O dinheiro do meu prêmio? Por que o senhor fez isso, pai? Por que não pegou o dinheiro do Vitorino para pagar essa garota?
ELIZEU: Eu até fui atrás do dinheiro do Vitorino, mas quando abri o envelope, só encontrei papel branco picado.
VITORINO: Como?
ELIZEU: Inclusive, Vitorino, você usou aquele dinheiro no quê?
VITORINO: Em nada, eu nunca tinha tocado naquele dinheiro. Pelo contrário, eu estava guardando para eu poder usá-lo mais tarde, em algo de necessidade.
ELIZEU: Como não usou? Deve haver uma explicação para o seu dinheiro não estar no envelope, e sim um monte de papel picado.
VITORINO: Eu preciso ver isso com os meus próprios olhos.
(Vitorino levanta-se e sai)
Cena 9/ Vila Prata/ Casa Chester/ Quarto Vitorino/ Interno/ Noite
(Vitorino abre o envelope e vê os papéis picados. O restante da família entra)
VITORINO: Meu dinheiro foi roubado.
ELIZEU: Eu não acredito. Mas como isso foi acontecer, Vitorino?
VITORINO: Eu não sei.
LIDUÍNA: O senhor ainda pergunta, pai? Quem é o ladrão da família, oras?
(Elizeu, furioso, vira-se para Marcilio)
ELIZEU: Foi você, Marcílio?
MARCÍLIO: Claro que não, pai.
ELIZEU: Não minta para mim, Marcílio. Você roubou o seu irmão?
MARCÍLIO: Eu já disse que não.
(Elizeu pega no braço de Marcílio)
ELIZEU: Olha no fundo dos meus olhos e diz que você não roubou esse dinheiro.
(Pausa)
ELIZEU: Vamos, Marcílio. Diga.
MARCÍLIO: Para com isso, pai.
ELIZEU: Não consegue, não é? E não consegue porque foi você que roubou o dinheiro do Vitorino. Cadê? O que você fez?
MARCÍLIO: A culpa é da mamãe.
DOROTÉIA: O quê?
MARCÍLIO: Eu roubei o Vitorino porque ela pediu.
(Todos encaram Dorotéia)
Cena 10/ Vila Prata/ Casa Juscelino/ Quarto Joca/ Interno/ Noite
(Continuação imediata da cena 05 deste capítulo)
JOCA: Acalme-se, doutor Bonavante. Não vá fazer nenhuma besteira com esse revólver.
BONAVANTE: Adeus, Joca.
(Carlota entra)
CARLOTA: Não, pai. Não faça isso.
BONAVANTE: Carlota?
CARLOTA: Solte esse revólver, por favor. Não faça isso. Se o senhor matar o Joca, irá desgraçar sua vida.
BONAVANTE: Certo.
(Bonavante coloca o revólver na cintura)
BONAVANTE: Mas estou fazendo isso por você, minha filha. E quanto a você, Joca, se encostar na minha família, eu não terei piedade. Vamos, Carlota.
(Bonavante sai)
JOCA: Obrigado, Carlota.
CARLOTA: Imagina.
(Carlota sai)
Cena 11/ Vila Prata/ Casa Chester/ Quarto Elizeu e Dorotéia/ Interno/ Noite
ELIZEU: Como você teve coragem de mandar o Marcílio roubar o dinheiro do Vitorino para construir essa confeitaria?
DOROTÉIA: Eu não o mandei cometer nenhum roubo. Ele me disse que arranjaria um jeito de conseguir dinheiro e no dia seguinte me veio com aquelas notas de cem. Eu não fazia ideia que aquele dinheiro era o que você deu para o Vitorino.
ELIZEU: Chega. Eu não quero mais saber de confeitaria nenhuma, ouviu bem, Dorotéia? Essa história já rendeu demais.
(Elizeu encara Dorotéia)
Cena 12/ Vila Prata/ Casa Juscelino/ Sala de estar/ Interno/ Noite
(Alguém bate na porta. Ariana atende)
ARIANA: Seu Geraldo.
GERALDO: Olá, Ariana.
(Joca se aproxima)
JOCA: Boa noite, seu Geraldo.
GERALDO: Boa noite. Meninos, eu não trago boas notícias.
JOCA: Aconteceu alguma coisa?
GERALDO: O padre Juscelino está morto.
(Close na cara de Ariana e Joca, abalados)
Cena 13/ Mansão Sabarah/ Gabinete/ Interno/ Noite
CARLOTA: O senhor enlouqueceu, não foi? De onde tirou essa ideia absurda de matar o Joca?
BONAVANTE: Eu fiquei possesso, Carlota. Aquele moleque não é rapaz pra você.
CARLOTA: Por que ele é pobre?
BONAVANTE: Porque ele não tem condições de te dar uma boa vida.
CARLOTA: Isso é ridículo, pai. Eu amo o Joca.
BONAVANTE: Ama nada. Você esta proibida de ver aquele rapaz, entendeu? Proibida. Você me decepcionou muito, Carlota.
CARLOTA: O senhor também me decepcionou. Boa noite.
(Carlota sai)
DIAS DEPOIS
Cena 14/ Mansão Bovary/ Sala de estar/ Interno/ Manhã
(Alguém bate na porta. Clarissa atende)
CLARISSA: Sávio, meu irmão. É você mesmo?
SÁVIO: Em carne, osso e cansaço.
(Clarissa abraça Sávio)
CLARISSA: Estava morrendo de saudades de você.
SÁVIO: Eu também, Clarissa. Onde está o pessoal dessa casa? Quando eu saí daqui, essa casa era mais agitada.
CLARISSA: Bom, Sávio infelizmente aconteceu muita coisa enquanto você esteve em Londres.
SÁVIO: E você irá me atualizar de tudo, certo?
CLARISSA: Claro, mas...
SÁVIO: Onde está mamãe? Quero dar um abraço bem forte nela.
CLARISSA: Sávio, mamãe faleceu.
SÁVIO: O quê?
CLARISSA: Eu sinto muito.
(Clarissa abraça Sávio. Os olhos do rapaz lacrimejam)
Cena 15/ Mansão Sabarah/ Gabinete/ Interno/ Manhã
(Bonavante sentado à mesa. Simão entra)
BONAVANTE: E então? Fez o que eu pedi?
SIMÃO: Fiz, senhor. O Sávio, irmão da Clarissa, acabou de chegar.
BONAVANTE: Ótimo. Daqui a pouco, irei recepcioná-lo.
SIMÃO: Por que esse interesse todo no garoto, doutor Bonavante?
BONAVANTE: Porque eu preciso arranjar um pretendente à altura da Carlota o mais rápido possível. E, pelo que me consta, o Sávio é o candidato perfeito.
SIMÃO: O senhor por acaso está pensando em...
BONAVANTE: Casar a Carlota com o Sávio? Sim, Simão, eu estou. E a Carlota não terá escolha.
(Congela em Bonavante)
FIM DO CAPÍTULO

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