segunda-feira, 2 de março de 2015

Velhos Tempos - Capítulo 24



Cena 1/ Mansão Sabarah/ Gabinete/ Interno/ Manhã
(Continuação imediata da última cena do capítulo anterior)
SIMÃO: Casar a Carlota com o Sávio? O senhor acha que é uma boa ideia, doutor Bonavante?
BONAVANTE: E por que não seria? Eles se conhecem desde pequenos, o Sávio é um rapaz confiável, de boa família.
SIMÃO: Mas a dona Carlota tem ciência das suas pretensões?
BONAVANTE: Na hora certa, ela saberá.
SIMÃO: Isso é por medo da dona Carlota se reaproximar do Joca?
BONAVANTE: Simão, eu não poderei controlar a Carlota a vida inteira. Eu sei que haverá um dia em que minha filha terá que tomar as próprias decisões. Eu só não quero que ela tome as erradas e, para impedir isso, eu preciso casá-la o mais rápido possível com alguém que possui boas condições e que eu confio, claro.
SIMÃO: Certo, então.

Cena 2/ Mansão Bovary/ Quarto Sávio/ Interno/ Manhã
(Clarissa e Sávio, abraçados, entram)
CLARISSA: Seu quarto continua o mesmo. Mamãe não fez questão de mexer em nada.
SÁVIO: Sentirei muita falta dela.
CLARISSA: Todos nós sentiremos.
SÁVIO: E ainda não tive a chance de se despedir dela.
CLARISSA: Imagino como deve estar sendo difícil para você, meu irmão. Mas saiba que eu estarei aqui para amenizar essa dor que você está sentindo, certo?
SÁVIO: Obrigado pelo apoio, Clarissa.
(Clarissa e Sávio se abraçam)
CLARISSA: Bom, eu tenho um compromisso agora.
SÁVIO: Namorado?
CLARISSA: Exatamente. Não disse que muita coisa mudou desde quando você foi para Londres? Até mais tarde.
SÁVIO: Até.
(Clarissa sai. Close no rosto de Sávio, que muda negativamente a expressão facial quando vê a irmã sair)

Cena 3/ Mansão Bragança/ Sala de estar/ Interno/ Manhã
(Laurinda desce a escada. Viriato a vê e se aproxima dela)
VIRIATO: Dias se passaram e você ainda não revelou a verdade para o Charles.
LAURINDA: Se está tão apressado, por que você mesmo não conversou com ele?
VIRIATO: Você não tem noção da barbaridade que eles estão cometendo, Laurinda? Isso tem que parar.
LAURINDA: Eu sei, Viriato, mas você é acha que é fácil contar para alguém que ele está namorando a própria irmã? Mas não se preocupe. Estou indo atrás do Charles para ter essa conversa.
VIRIATO: Ele está no escritório de advocacia.
LAURINDA: Eu sei.
(Laurinda sai)

Cena 4/ Mansão Bragança/ Cozinha/ Interno/ Manhã
(Gertrude mexe a panela que está fervendo. Viriato entra)
VIRIATO: Mexendo panela? Desde quando você faz isso nessa casa, Gertrude?
GERTRUDE: Desde o momento em que todos os serviçais resolveram faltar no mesmo dia.
VIRIATO: Ah que pena. Esquece essa panela. Vamos fazer algo mais interessante.
(Viriato agarra Gertrude, mas ela se esquiva)
VIRIATO: O que foi, Gertrude? Não está interessada?
GERTRUDE: Aqui não, doutor Viriato.
VIRIATO: Como?
GERTRUDE: Eu não quero mais trair a dona Laurinda desse jeito. Eu tenho medo que ela chegue e nos flagre.
VIRIATO: A Laurinda acabou de sair, Gertrude, e algo me diz que ela vai demorar.
GERTRUDE: Mesmo assim, nós estamos nos arriscando demais ao transar debaixo do mesmo teto que a dona Laurinda.
VIRIATO: E o que você sugere? Um motel?
GERTRUDE: Até que não seria má ideia.
VIRIATO: Certo então. Tem um motel na entrada da vila. Amanhã à noite. Pode ser?
GERTRUDE: Pode.
(Gertrude encara Viriato)

Cena 5/ Vila Prata/ Casa Chester/ Quarto Marcílio/ Interno/ Manhã
DOROTÉIA: Notícias sobre a Laurinda?
MARCÍLIO: Sim. Durante esses dias nos quais eu fiquei sondando-a, eu percebi o quão solitária ela é.
DOROTÉIA: Solitária?
MARCÍLIO: Sim. Além disso, ela me pareceu ser submissa ao marido, carente, frágil. E não tem muitos amigos também.
DOROTÉIA: Ótimo. Se a Laurinda é mesmo essa mulher frágil e ingênua que você está falando, será muito fácil arrancar dinheiro dela para a construção da confeitaria. Sabe de uma coisa, Marcílio? Você poderia se aproximar dela.
MARCÍLIO: Como?
DOROTÉIA: É, você deveria se aproximar da Laurinda, estabelecer um vínculo com ela, seduzi-la. Eu tenho certeza que ela não resistirá ao seu charme, filho. Aliás, se ela é tão carente, óbvio que ela precisa de atenção e nada melhor para uma mulher quarentona como a Laurinda receber a atenção de uma garotão bonito como você. O que acha?
MARCÍLIO: Isso pode me render muitas coisas boas.
DOROTÉIA: Vai render, Marcílio. Vai render.
(Marcílio e Dorotéia trocam sorrisos vencedores)

Cena 6/ Vila Prata/ Escritório de Advocacia Charles/ Interno/ Manhã
(Charles e Cassilda passeiam pelo lugar)
CASSILDA: Nossa, amor, ficou muito lindo.
CHARLES: Que bom que gostou, Cassilda. Sua opinião é de grande valia para mim.
CASSILDA: Já recebeu algum cliente depois da inauguração?
CHARLES: Ainda não. Mas eu sei que não posso esperar muita coisa daqui. A vila não tem muitos habitantes e as coisas por aqui ainda se resolvem na luta corporal.
CASSILDA: Mas com seu escritório você poderia mostrar um pouco do progresso, o que acha?
CHARLES: Assim espero.
(Laurinda entra e flagra Charles e Cassilda aos beijos)
LAURINDA: Bom dia.
CHARLES: Mãe, que bom vê-la aqui.
CASSILDA: Olá, dona Laurinda.
LAURINDA: Olá, Cassilda. Charles, nós poderíamos conversar?
CHARLES: Claro, mãe.
LAURINDA: A sós?
CASSILDA: Bom, eu já vou indo. Carlota está me esperando lá fora. Prometi para ela que não iria demorar. Até mais, meu amor. (beija Charles). Tchau, dona Laurinda. Com licença.
(Cassilda sai)

Cena 7/ Vila Prata/ Rua/ Manhã
(Carlota parada na rua. Ariana se aproxima)
ARIANA: Carlota.
CARLOTA: Bom dia, Ariana. Tudo bem?
ARIANA: Na verdade, não. Que bom que eu te encontrei, Carlota. Estou precisando urgentemente da sua ajuda.
CARLOTA: O que houve?
ARIANA: Desde que o padrinho morreu, o Joca não faz outra coisa além de beber, beber e beber. Eu não sei mais o que fazer para tirá-lo dessa situação, Carlota. O meu irmão está inteiramente mergulhado na fossa. Talvez, se você for falar com ele...
CARLOTA: Eu sinto muito, Ariana, mas eu não posso.
ARIANA: Carlota, você não pode recusar. Eu estou desesperada. O Joca precisa se reerguer e dar um sentido para a vida dele.
CARLOTA: Ariana, se meu pai descobrir que eu entrei em contato com o Joca, ele irá surtar e matar seu irmão. Eu não posso deixar isso acontecer. A minha recusa, a minha distância é para salvar o Joca, mantê-lo a salvo.
ARIANA: Eu já esperava por isso, mas eu te digo uma coisa, Carlota. Se o seu pai não matar o meu irmão, você pode ter certeza que a bebida irá matá-lo.
(Ariana sai. Cassilda se aproxima de Carlota)
CASSILDA: Algum problema com a Ariana?
CARLOTA: O Joca se tornou um alcoólatra, Cassilda, e eu estou de mãos atadas, sem poder fazer nada para ajudá-lo.

Cena 8/ Paisagens de Vila Prata/ Tarde

Cena 9/ Vila Prata/ Casa Geraldo/ Quarto Nuno/ Interno/ Tarde
(Nuno e Clarissa estão se beijando. Eles param)
CLARISSA: Meu irmão chegou de viagem.
NUNO: Hoje?
CLARISSA: Sim. Foi muito difícil para ele saber que mamãe tinha morrido.
NUNO: Ele não sabia?
CLARISSA: Não. Eu poderia ter enviado a notícia por telegrama, mas eu preferi contar pessoalmente.
NUNO: E você agiu certo.
CLARISSA: Bom, será que você poderia ir à minha casa hoje à noite para abrir o testamento da mamãe?
NUNO: Claro. Eu irei sim.

Cena 10/ Praça/ Interno/ Tarde
(Ariana sentada em um banco. Cassandra a vê e se senta ao lado dela)
CASSANDRA: Fiquei surpresa ao receber o seu chamado.
ARIANA: Só te chamei porque eu estou completamente desesperada, sem mais saber o que fazer.
CASSANDRA: O que houve?
ARIANA: Meu irmão não para de beber, Cassandra. Será que você poderia tirá-lo dessa sua situação?
CASSANDRA: Nossa. Posso saber por que não chamou a Carlota?
ARIANA: Eu chamei, mas ela não pôde me ajudar. Enfim, Cassandra, você pode ou não fazer esse favor ao meu irmão e afastá-lo da bebida?
CASSANDRA: Fique tranqüila, queridinha. Farei o meu melhor.
(Cassandra encara Ariana)

Cena 11/ Mansão Bragança/ Quarto Cassandra, Cassilda e Carlota/ Interno/ Tarde
CASSILDA: Foi tão estranho, Carlota. De repente, a dona Laurinda apareceu no escritório querendo conversar a sós com o Charles.
CARLOTA: Será que o Viriato descobriu o relacionamento de vocês?
CASSILDA: Bate nessa boca, Carlota. Eu e o Charles decidimos que a rivalidade entre os nossos pais não irá nos afetar, mas nós sabemos o quanto será difícil para o nosso namoro caso algum deles venha a descobrir o relacionamento. Não viu o que aconteceu com você e o Joca?
CARLOTA: Obrigada por usar meu namoro com o Joca como exemplo. Nossa, Cassilda, eu estou tão preocupada com ele.
CASSILDA: Carlota, o que acha de nós nos consultarmos com a vidente Soraya?
CARLOTA: O quê?
CASSILDA: Eu soube que ela previu o atropelamento da Liduína e conseguiu salvá-la a tempo. Vamos, por favor. Eu quero saber se há um final feliz para o meu namoro com o Charles.

Cena 12/ Vila Prata/ Restaurante/ Interno/ Tarde
(Laurinda e Charles sentados à mesa)
CHARLES: Estou adorando passar o dia com a senhora. A Cassilda poderia estar aqui. Aliás, ela foi embora e a senhora ainda não teve aquela conversa que queria ter quando chegou no escritório.
LAURINDA: Por que você foi se lembrar disso, Charles?
CHARLES: A senhora não quer mais ter essa conversa?
LAURINDA: Eu passei a semana inteira pensando em como te contar isso, mas vejo que a melhor forma é sendo direta e objetiva.
CHARLES: O que está havendo, mãe?
LAURINDA: Charles, você não pode mais namorar a Cassilda.
CHARLES: Como? Mas por quê?
LAURINDA: Porque a Cassilda é sua irmã.
(Close em Charles, abalado)

Cena 13/ Vila Prata/ Casa Juscelino/ Sala de estar/ Interno/ Tarde
(Cassandra entra e vê Joca sentado em uma poltrona segurando uma garrafa de cerveja)
CASSANDRA: Oi.
JOCA: O que você está fazendo aqui?
CASSANDRA: Vim te curar dessa bebedeira.
JOCA: Vai embora, Cassandra. Eu não quero mais você na minha vida.
(Cassandra se aproxima de Joca e acaricia os ombros dele)
CASSANDRA: Calma, Joca. Eu só quero prestar a minha boa ação do dia.
JOCA: Eu não quero nada que venha de você.
CASSANDRA: Por que não fazemos o seguinte? Você larga essa cerveja e passa a focar em mim, somente em mim?
(Cassandra beija Joca de surpresa, que deixa cair a cerveja. Ela senta em cima dele e tira a camisa dele.)

Cena 14/ Paisagens de Vila Prata/ Noite

Cena 15/ Vila Prata/ Casa Juscelino/ Quarto Joca/ Interno/ Noite
(Joca e Cassandra deitados, cobertos por um lençol. Joca acorda meio zonzo e percebe a presença de Cassandra ao seu lado, já acordada e olhando para ele, com um sorriso cínico)
JOCA: Mas o que significa isso?
CASSANDRA: Você não se lembra?
JOCA: O que você está fazendo aqui, Cassandra? Deitada na minha cama?
CASSANDRA: Ah, Joca, por favor. Vai dizer mesmo que não se lembra?
JOCA: Eu não consigo me lembrar.
CASSANDRA: Certo, Então serei bastante específica com você. Nós transamos, Joca, e foi incrível. Agora você se lembra?
(Congela em Joca, surpreso)

FIM DO CAPÍTULO

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